AFP: Budistas ameaçados de sair do templo vietnamitaAFP: Budistas ameaçados de sair do templo vietnamita

No dia 11 de dezembro de 2009 a imprensa francesa associada, AFT, publica:

HANOI: Depois de três dias de pressão intensa de uma multidão, o diretor do templo budista no Vietnã Central disse sexta-feira que os seguidores do influente monge residente na França não podem mais se abrigar naquele templo.
“Eu tive que concordar, eu não tive escolha”, disse Thich Thai Thuan a AFT do tempo Phuoc Hue na província Lam Dong.
Ele disse que houve uma “forte pressão” de uma multidão de cerca de 100 pessoas que desceram até o templo por três dias até sexta, exigindo que os devotos de Thich Nhat Hanh, monge residente francês, fossem embora.
“Foi por isso que eu tive de assinar hoje de manhã… uma promessa escrita da saída deles até o dia 31 de dezembro, no mais tardar” – disse o abade.
Nhat Hanh é um monge Zen, e foi amigo íntimo do assassinado líder americano pelos direitos humanos Martin Luther King.
Quase 200 dos seus seguidores estavam alojados em Phuoc Hue desde setembro, quando fugiram do mosteiro deles em Bát Nhã, também na província Lam Dong.
Os seguidores disseram, na ocasião, que eles fugiram de Bát Nhã depois das ameaças das pessoas armadas com martelos e bastões.
“Para as autoridades, nós estamos ilegais”, disse o monge representante o grupo, Trung Hai mês passado em Genebra.
Uma monja que não quis ser identificada, disse que havia policiais na multidão, cujos membros disseram a ela que eles tinham sido pagos para intimidar os budistas.
“Nós não temos um lugar para ir. Nós não sabemos o que fazer”, disse a monja.
Um porta-voz da localidade não pode ser alcançado para comentar, mas um chefe policial do vilarejo próximo a Bao Loc disse: “Eu não sei de nada sobre a situação neste templo”. Em outubro uma porta-voz do ministério das relações exteriores descreveu o assunto como sendo uma disputa interna entre os budistas e negou que centenas de pessoas tivessem sido forçadas a sair de Bát Nhã. Uma multidão chegou pela primeira vez em Phuoc Hue na quarta-feira durante uma visita de investigação realizada pela União Européia, segundo disseram as testemunhas.
Depois da visita da comitiva uma resolução do Parlamento Europeu do mês passado condenou a expulsão violenta da “pacífica comunidade budista”. A resolução exigia que o Vietnã cumprisse suas obrigações internacionais de permitir a livre prática religiosa.
Os vigilantes dos direitos humanos [Human Rights Watch] residentes em Nova Iorque disseram na sexta feira que o governo vietnamita estava mostrando “desprezo cada vez maior e falta de respeito pelos direitos humanos básicos”, e que os monges e monjas eram vítimas de uma violência orquestrada.
“Está claro que as autoridades vietnamitas estão se sentindo ameaçadas pelos movimentos religiosos que eles percebem como ameaçadores da autoridade do partido”, disse Brad Adams, o diretor cão de guarda da Ásia.
Todas as atividades religiosas continuam sob o controle do estado no Vietnã, mas o governo diz que sempre respeita a liberdade de crença e religião.

UM CLAMOR PELA PAZ

Queridos amigos ao redor do mundo,

O dia 31 de dezembro de 2009, último dia do ano, marca um momento especial para muitos de nós; muitos celebram, fazem resoluções enquanto entram no Ano Novo de 2010.

Esta data também marca um momento doloroso para uma comunidade de monges e monjas das áreas montanhosas do Vietnã central. Depois de terem resistido pacificamente por mais de um ano a uma brutal perseguição física e psicológica – o governo finalmente conseguiu dissolver esta comunidade – o prazo máximo oficial para eles se dispersarem foi ontem, 31 de dezembro.

Este é um momento simbólico para eles e para os membros da comunidade mais ampla da tradição de prática meditativa fundada pelo monge budista e militante da paz Thich Nhat Hanh. Todos os 400 membros da comunidade já fugiram do templo onde se refugiaram depois de terem sido violentamente expulsos do próprio mosteiro deles em setembro do corrente. Muitos estão agora escondidos no Vietnã. Eles aguardam ansiosamente pela resposta do governo francês a quem solicitam asilo. A intenção deles é permanecer temporariamente no mosteiro lar deles em Plum Village, sudeste da França, até que o governo no Vietnã se torne mais aberto e eles possam retornar.

Esta estória não é nova. Pelo mundo, em cada canto do nosso planeta, em cada país e em todos os tempos, vários povos e grupos, grandes e pequenos, estiveram sendo perseguidos e sujeitos à violência e discriminação baseadas em raça, gênero, idade, religião, nacionalidade e visão política. Nesta véspera de Ano Novo, nós também nos lembramos dos eventos que aconteceram há 2010 anos. Muitos de nós em todo mundo celebramos recentemente o dia de Natal – que é um dia de esperança pela paz do mundo – a estória de uma criança nascida num tempo e lugar de grande perseguição e violência. Para muita gente, o nascimento de Jesus é a estória de alguém que superou estas condições, e ofereceu uma mensagem de esperança, e um caminho de paz.

Agora enquanto estes 400 monges e monjas budistas atravessam seus próprios momentos de perigo, eles se juntam à fileira de incontáveis outros. Neste momento, milhares e milhares de outros ao redor do globo, católicos, protestantes, ateus, hindus, mulçumanos, pequenas seitas e comunidades, negros, asiáticos, hispânicos, africanos, mulheres, crianças, idosos – incontáveis grupos – milhões estão sujeitos à discriminação e violência. Muitos estão buscando abrigo, pedindo ajuda. Muitas destas vozes não são ouvidas.

Neste ano de 2010 vamos nos proporcionar o tempo necessário para fazer as pazes conosco e com aqueles à nossa volta. Um caminho de paz e indiscriminação estão disponíveis. Vamos dedicar os primeiros dias de 2010 à aceitação, à inclusão, à não-violência, à paz.

Vamos caminhar em paz com os pés de Gandhi e Martin Luther King, seguindo as pegadas de Jesus, Moisés, Maomé, Buda e incontáveis outros mensageiros da paz e da liberdade. Vamos, por um dia, não causar danos a ninguém, a nenhum ser vivo, nem a Terra, seja em pensamentos, palavras ou ações. Vamos por um dia, não condenar ou discriminar ninguém. O nosso mundo está desesperadamente necessitando de cura. Vamos viver juntos, um dia, em paz. Vamos dar um pequeno passo em direção à paz.

A Rádio Francesa Internaciona entrevista o Venerável Abade de Phuoc Hue

(Tradução do vietnamita http://www.rfi.fr/actuvi/articles/120/article_6030.asp)
Venerável Abade: Aconteceu também hoje de manhã, como nos últimos dois dias, eles também pressionaram, também usaram faixas, também usaram gestos para empurrar a Sanga de Plum Village para fora. E eles me pressionaram, dizendo que eu tinha que assinar um documento para expulsar os monásticos.
RFI: E no final, você assinou o documento. Qual o conteúdo do documento?
Venerável Abade: Eles me forçaram, então eu tive que assinar que a partir de hoje até dezembro… Eles disseram que não poderia ser prolongado novamente, somente até o dia 15 de dezembro. Mas eu pedi ao Comitê do Povo e a Frente Nacional que me desse até o final de dezembro. Então eu assinei o documento, e o conteúdo é que de hoje até o final de dezembro, a comunidade tem que ir embora do templo Phuoc Hue. Eu também pedi que os diferentes níveis do governo trabalhassem de tal modo a não permitir que pessoas violentas entrem aqui de novo.
RFI: Quem são estas pessoas violentas, respeitado professor?
Venerável Abade: Entre as pessoas violentas estavam também policiais e membros/funcionários do governo e jovens desconhecidos que vieram aqui.
RFI: Não havia nenhum seguidor budista do templo, havia?
Venerável Abade: Eu quero confirmar uma coisa: que não havia absolutamente nenhum seguidor budista. Hoje de manhã eu também confirmei com o Comitê do Povo (Uy Ban) que se alguém é um seguidor budista (um filho budista), aquela pessoa tem que tomar refúgio nas Três Jóias e estudar o Darma e praticá-lo. Eles não eram seguidores budistas.
RFI: Inclusive as pessoas que ficaram de pé diante de você e disseram coisas desrespeitosamente e se chamaram de seguidores budistas de Phuoc Hue, você confirma que elas não eram seguidoras budistas?
Venerável Abade: Não, elas não eram.
RFI: Há notícias de que o governo mobilizou algumas centenas de policiais em treinamento de Hanoi para irem à Phuoc Hue, isso é verdade, professor?
Venerável Abade: Isso eu não vi, ainda não sei.
RFI: Legalmente, se alguém tem uma casa, e outra pessoa aponta uma arma para o proprietário daquela casa forçando-o a assinar um documento de que ele tem que abandonar a sua própria casa, esse documento tem validade/legitimidade no Vietnã?
Venerável Abade: Agora, eu apenas assinei. Se isto é válido ou não… eu não compreendo como funciona. Eu não sei. Eu também estive dizendo a eles que: minha casa tem um dono, e quando existe um proprietário, se houve desordem na casa, eu lhes peço ajuda, mas vocês não ajudam.
RFI: Há notícias de que monásticos, funcionários, Veneráveis e Os Mais Veneráveis da Igreja Budista de Lam Dong se sentiram perturbados, e eles ameaçaram de renunciar coletivamente para se opor a estas ações. Isto é verdade?
Venerável Abade: Sim, também existe isso. Os Veneráveis compreendem que toda essa agitação leva a nada; só vira tudo de cabeça pra baixo. A Igreja Budista tentou trabalhar, mas não pode fazer coisa alguma, então a Igreja Budista também quis dizer, bem, então nós renunciamos.
RFI: O seu telefone também foi cortado. Os policiais intervieram para impedir o templo de entrar em contato com o mundo lá fora?
Venerável Abade: Por todo o tempo, eu ainda pude ouvir o telefone, mas certamente, as pessoas lá fora também ouviam.
RFI: Você é o Abade do Templo Phuoc Hue. Então você sabe que os lares dos seguidores budistas do templo estiveram sendo cercados nestes últimos dias, eles puderam vir ao Templo Phuoc Hue?
Venerável Abade: Sim, isto aconteceu. Teve isso sim.
RFI: Pelo que você sabe como os seguidores budistas laicos reagiram a estes eventos?
Venerável Abade: Os seguidores do Templo Phuoc Hue sentiram que isto é injusto (bat binh) que haja estas ações e trabalhos, porque eles dizem que a prática espiritual é para todos (tu thi ai cung tu). Eles sempre apoiaram o caminho da prática. Eles não vêem problemas algum. Por isso sentem que é injusto tudo o que aconteceu. Eles até mesmo choram.
RFI: Qual é a reação dos monges e monjas de Bát Nhã atualmente no templo?
Venerável Abade: Os monges e monjas, ainda estão vivendo aqui no momento. Eles continuam a praticar, a fazer meditação caminhando, fazer meditação sentada, entoar cânticos e à noite eles também recitam sutras e fazem prostrações [tradição da Terra Pura]. Depois de tudo o que aconteceu, como eles tinham medo que eu estou fraco e doente, então eu teria certas dificuldades (buc xuc), por causa disso eles queriam reconhecer o papel deles – queriam tempo para pensar, assumir responsabilidade pela parte deles nisso. (Qua cai su viec nhu the nay, boi vi ho so toi la yeu om, cho nen co nhung cai buc xuc, do do ho cung muon la de ho co 1 phan nao do de ho suy nghi va ho se giai quyet cong viec cua ho).
RFI: Depois das cartas do Venrável Minh Nghia em Dong Nai e do Venerável Vien Thanh in Da Lat pedindo permissão para patrociná-los terem sido negadas, os monges e monjas continuaram a residir em Phuoc Hue sob sua proteção compassiva. O que o Senhor acha desta vasta região do Vietnã, sob este imenso céu não ter um lugar para estes 400 jovens monges e monjas se refugiarem?
Venerável Abade: Eu também desejo isso, porque o Vietnã sempre quer funcionar sendo verdadeiro com o espírito de proteger o povo gentil e ético sempre, para que assim eles pudessem viver uma vida de prática de acordo com as aspirações e votos deles. E talvez eu também desejo que o governo também sempre tenha estes pensamentos. No Vietnã, embora tenhamos muita gente, nós ainda temos muita terra.. Eu também quero que, se existir alguns males entendidos, que nós coloquemos isto de lado, e ajude a trazer de volta a vida de prática por eles. Outra coisa é que, existe tanta terra no Vietnã, então com certeza, um dia num futuro próximo, o governo ajudará a comunidade para que ela possa viver junta em algumas áreas. É este o meu desejo. Também espero que todos vocês também os ajudem a ter um bom lugar.
RFI: Uma pergunta rápida, querido Professor, o governo teme a “Carta de Sangue” escrita pelos jovens monásticos em Lam Dong2 dois meses atrás e o que eles declararam [que seriam capazes de sacrificar a vida deles] se o governo usasse violência para oprimir os monásticos de Bát Nhã?
Venerável Abade: Eles não temem este tipo de coisa.
RFI: Obrigado, Venerável Thai Thuan. Que o Bodisatva Avalokiteshvara lhe proteja e os monásticos de Bát Nhã.
Venerável Abade: Muito obrigado, irmão. Desejo-lhe boa saúde.

Perseguição religiosa no Vietnã

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O som mágico da cítara

Continuação da carta de Thich Nhat Nanh aos seus discípulos de Bát Nhã
Escrita em vietnamita e traduzida para o inglês
Postada sábado 17 de outubro de 2009 no http://helpbatnha.org

Thây está continuando a escrever uma carta para vocês do seu eremitério Thach Lang, no Mosteiro Blue Cliff. Hoje são 13 de outubro de 2009. Thây acabou de chegar de Nova Iorque. Em Nova Iorque, Thây e a Sanga guiaram dois dias de prática para mais de 2000 praticantes americanos no nordeste dos EEUU. Isto aconteceu no Teatro Beacon na Broadway Street; e o tópico foi “Construindo uma sociedade pacífica e compassiva” nestes dois dias de prática. Às 12h30m, do dia 10 de outubro de 2009, mais de duas mil pessoas fizeram meditação caminhando na Broadway para enviar energia aos “filhos e filhas de Thây em Bát Nhã, que estão residindo no templo Phuoc Hue.
Thây relembra que durante sua estada em Phuoc Hue, ele morou com dois irmãos monásticos: Thây Tam Cat e Thây Duc Tram, que tinham mais ou menos a mesma idade que Thây. Nos anos 1940, nós três tínhamos estudado juntos no Instituto Budista Bao Quoc em Hue. O nome laico de Thây Tam Cat era Huyen Ton Vien Lau. Thây Duc Tram era um dos discípulos mais velhos do Mais Venerável Tri Thu do Templo Paramita. Nós três vivíamos em Phuoc Hue e dirigíamos as práticas dos amigos leigos. Todo dia ao anoitecer, nós saíamos para um grande campo atrás do templo para jogar futebol. Naquele tempo, ninguém do círculo monástico sabia jogar futebol. O Mais Venerável Thien Minh (Thây Tri Nghiem) era jovem naquela época, com uns 25 anos de idade e foi o primeiro monge a jogar futebol junto com os noviços no Templo Linh Son em Da Lat. Depois de alguns anos, outros monges como Thây Nhu Tram, Tri Khong, Long Nguyet e vários outros alunos monásticos do Instituto Budista Na Quang também vieram para Phuoc Hue para estudar e praticar com Thây. No Templo Phuoc Hue, Thây também organizou aulas para crianças do primeiro e segundo graus do vilarejo. O seu irmão mais velho, Nhat Tri, foi ordenado neste templo. E naquele mesmo dia, outra criança teve sua cabeça raspada e recebeu os três preceitos (equivalente ao primeiro, segundo e quarto dos Cinco Treinamentos da Consciência Plena). Ele só recebeu os três preceitos porque era muito jovem – tinha apenas seis ou sete anos de idade. Este garotinho depois se tornou o Mais Venerável Nguyen Hanh, que hoje é o Abade do Templo Viet Nam em Houston, que é hoje um dos maiores templos dos Estados Unidos.
A caligrafia do irmão mais velho de Nhat Tri era exatamente como a de Thây; e semelhante a da sua irmã mais velha Luong Nghiem, quando ela escreve caligraficamente – a escrita dela também se assemelha muito a de Thây. O seu irmão Nhat Tri foi um dos pioneiros do movimento do Serviço Social dos Jovens. Ele ajudou a construir os dois primeiros Vilarejos de Amor deste movimento – os vilarejos Cau Kinh e Thao Dien. Foi o Mais Venerável Chau Duc quem trouxe o seu irmão mais velho de Quang Nam para entregá-lo aos cuidados de Thây. Os alunos daquelas escolas de primeiro e segundo graus do distrito de Bao Loc estão hoje na casa dos sessenta e setenta anos de idade; a maioria já são avós e avôs. Sorriam meus filhos e filhas! Vocês ainda são muito jovens. Então aprendam a viver profundamente no momento presente e sorriam; um sorriso sincero e cheio de frescor; e olhem com olhos gentis e brilhantes. Aprendam a amar e a perdoar exatamente agora no momento presente, e a gerar momentos de felicidade com a prática da consciência plena, para que vocês não se tornem os velhos veneráveis tão rapidamente. O monge bisavó de vocês, o patriarca Thanh Quy Chan That, foi capaz de manter a inocência e mente pura dele até os seus 80 anos, porque foi capaz de manter inteira a Mente de Iniciante dele. O seu tio monge Chi Mau relembra que nos últimos momentos de vida do monge bisavô, ele se deitou na postura do leão com as duas mãos unidas em um lótus. Nós professores e discípulos queremos praticar como o monge bisavô, mantendo nossa aspiração e Mente de Iniciante intacta por toda vida. A energia da Mente de Iniciante trás muita felicidade para nós e para as pessoas que amamos. A Mente de Iniciante é o nutriente mais valioso para um praticante espiritual.
Nesta turnê norte americano, Thây, enquanto ensinava sobre os Quatro Nutrientes, abordou primeiramente a volição, como um tipo de alimento, depois a consciência, em seguida as impressões sensoriais, e por último os alimentos comestíveis. A abordagem deste ensinamento foi usada por Thây primeiro no retiro monástico do Mosteiro Deer Park. Thây espera que todos vocês em todos os lugares tenham chance de ouvir estas três palestras de Darma deste retiro monástico. A Mente de Iniciante é também chamada Bodhicitta ou Mente de Amor, que é o nutriente essencial para todos nós. Ela pertence à primeira fonte de nutriente – volição. Geralmente na sociedade, as pessoas se referem a ela como um ideal, a aspiração, ou desejo mais profundo na vida de uma pessoa. Com este ideal de amor em mente, instantaneamente temos uma grande fonte de energia que nos ajuda a progredir, superando todos os obstáculos, realizando nossos desejos mais profundos e atingindo a grande felicidade. Uma pessoa sem um ideal ou uma aspiração é alguém sem uma fonte de vida. Para praticantes monásticos, aquele ideal é transformar nosso próprio sofrimento e ajudar também a transformação dos outros. Nós estamos juntos por causa deste ideal e não porque buscamos fama, poder ou prazeres sensoriais. Como sabemos que o desejo por fama, poder e prazeres sensoriais podem trazer muito perigo e sofrimento ao corpo e à mente, nós nos determinamos a nos libertar destes desejos e a encontrar um desejo mais benéfico – e este desejo é a nossa Mente de Amor. A Mente de Amor é muito forte quando ela nos habita pela primeira vez. Ela nos ajuda a romper e soltar todas as nossas dependências muito facilmente. Durante a vida inteira enquanto praticantes, devemos saber como nutrir esta mente e não permitir que ela se desgaste.
Por isso, devemos ter uma segunda fonte de nutrição: a consciência – que é a consciência coletiva da Sanga. A Sanga é uma comunidade de pessoas com a mesma aspiração. Todos numa Sanga têm a energia da Mente de Amor; todos querem praticar para se transformarem e contribuir na carreira de servir a humanidade. Enquanto vive harmoniosamente juntos de acordo com as Seis Harmonias, a Sanga é capaz de gerar a energia coletiva da consciência plena, concentração e insight. É esta energia que ajuda a nutrir a Mente de Amor em cada membro da Sanga. Se vocês, meus discípulos amam a Sanga, não querem se separar da Sanga, e quer encontrar meios de construir uma Sanga, é porque vocês têm a necessidade de serem nutridos por esta energia coletiva. Por isso, quando eles tentam dispersar a Sanga, vocês têm se esforçado ao máximo para proteger a Sanga e não permitir que a Sanga seja dissolvida.
Na sociedade, os revolucionários também têm suas Mentes de Amor. Eles têm os ideais deles, a aspiração de salvarem sua terra natal, o povo deles; de expulsar os invasores e lutar pela independência do país deles. A volição dos revolucionários não é nem um pouco menos impressionante do que a Mente de Amor dos monásticos. E estes revolucionários também precisam de uma Sanga para nutrir a aspiração deles, e esta Sanga é a organização revolucionária deles. Se dentro de uma Sanga nós temos amor e irmandade, na organização revolucionária existe amor e camaradagem. Este amor de camaradagem é a fonte de alimento, de motivação que consegue nutrir a força de vontade e diligência dos revolucionários.
Construir uma organização revolucionária requer uma ética revolucionária: integridade e honestidade são duas virtudes básicas de uma organização revolucionária; exatamente como nos preceitos monásticos, onde a concentração e o discernimento constituem a verdadeira essência de uma sanga. Se não praticarmos os preceitos e maneiras conscientes e não praticarmos a consciência plena, não podemos nutrir a energia da sanga. Se os revolucionários não praticam integridade e honestidade, eles não conseguem nutrir a organização revolucionária; e o fogo da revolução se extinguirá. Esta regra também se aplica à sanga. Sem a prática de viver harmoniosamente juntos com a energia da consciência plena, concentração e discernimento, a sanga também morrerá. Externamente, pode parecer como uma comunidade de prática, mas internamente, só está composta de indivíduos que estão buscando por confortos materiais e emocionais para satisfazer uma vida sem significado.
A Igreja Budista é a sanga de todas as sangas. Se a Igreja Budista está constituída de sangas com forças-vitais e com idéias nascidos da Mente de Amor, a energia da Igreja Budista será poderosa e a Igreja Budista se tornará uma fonte de nutrição tanto para os monásticos quanto para os praticantes leigos. Caso contrário, a Igreja Budista apenas será um lugar aonde as pessoas vêm buscar lucros e status. Se o fogo sagrado da revolução se extingue, os estabelecimentos políticos deixam de ter força-vital, e aquelas pessoas que querem se unir deixa de ser àquelas repletas do ideal e aspiração de salvar o país e o seu povo; e passa a ser pessoas meramente buscando posições e benefícios.
Quando os padres católicos de “Dòng Chúa Cúu Thê” falaram abertamente para proteger a sanga de Bát Nhã, Thây viu que esta tradição de prática ainda é capaz de manter a vida da comunidade deles, e por isso tiveram força heróica suficiente para falar abertamente daquela maneira. Quando o Conselho Administrativo da Igreja Budista da província de Lam Dong falou abertamente para oferecer refúgio e proteger a Sanga de Bát Nhã, Thây viu que o Conselho Administrativo ainda é capaz de manter viva a sanga deles, e por isso tiveram coragem e amor suficientes para fazer isto. Se estes Veneráveis falaram abertamente para abrigar e proteger vocês, é porque a sanga de Bát Nhã ainda é uma sanga nutrida pela Mente de Amor; com ninguém correndo atrás de fama, pode e prazeres sensuais; com todos querendo apenas praticar e servir.
Em Abril deste ano, no Instituto Europeu de Budismo Aplicado na Alemanha, Thây deu uma rápida palestra sobre a sanga e o estabelecimento; que é importante ter primeiro a presença de uma linda sanga, o estabelecimento é secundário. Somente quando nós temos um pêssego verdadeiramente bonito, é que nós procuramos um prato ou bandeja para colocá-lo. Sem o pêssego, prá que serviriam o prato ou a bandeja? Se não tivermos esta terra Bát Nhã, haverá outra Bát Nhã noutro lugar. O que é mais importante é construir uma linda sanga.
A primeira coisa que Buda fez depois de ter alcançado a iluminação sob a árvore Bodhi foi procurar seus amigos praticantes para construir uma sanga. Construir sanga é a carreira de Budas, e também é a carreira de qualquer praticante espiritual. Este também é o caso dos membros da revolução, que querem construir um partido revolucionário. Sem a sanga, a carreira de um (a) Buda não pode se realizar. Sem a organização revolucionária, a carreira do revolucionário também não pode ser alcançada. Nos últimos sessenta anos, o professor de vocês nunca negligenciou a prática de construir sanga. Thây tem ajudado na construção de milhares de sangas em várias partes do mundo, e cada sanga se tornou um lugar de refúgio para muitos praticantes daquele local. Dr. Martin Luther King foi alguém que Thây se sentia muito próximo, e ele falava sobre a sanga como “queridas comunidades”, querendo dizer “sanga querida”. A sanga de Bát Nha também é uma dessas “sangas amadas”.
Quando Thây ainda era um jovem monge durante a revolução contra a França, Thây tinha encontrado meios de proteger os revolucionários quando eles estavam em perigo, procurando refúgio em templos. Esta era uma das coisas mais perigosas a serem feitas. Os soldados franceses poderiam atirar em nós porque ousávamos abrigar estes revolucionários. Thây Tri Thuyen, Thây Tam Thuong e muitos outros jovens monásticos da idade de Thây foram baleados por que fizeram este tipo de coisas. Milhares de revolucionários iam se esconder nos templos, e os monges e monjas sempre encontrava meios de abrigá-los e protegê-los. Todos faziam isto porque todos nós amávamos nosso país e a partir deste amor, queríamos proteger os soldados. Na última carta endereçada ao Presidente do Vietnã, datada 30 de setembro de 2009, Thây lembrou-lhe desta estória. Thây tem certeza que quando o Presidente ainda era um revolucionário juntamente com muitos outros soldados que hoje são veteranos da revolução, ele e os outros também atravessaram muitos momentos perigosos na vida; e eles não deveriam nunca se esquecer do apoio cerrado – assim como a água está para o peixe – entre o povo e os soldados daquela época.
Naquela mesma carta, dentro do mesmo espírito, Thây também escreveu que os policiais e àqueles que deram ordens para usar de todos os meios para despejá-los de Bát Nhã, “eles certamente não podem ser filhos da revolução”. As ações deles são ingratas, imorais e traiçoeiras; e não se coadunam com a verdadeira tradição revolucionária. Thây também requereu ao Presidente que interviesse e parasse estas ações que contradizem os princípios da revolução e são contra as virtudes e valores tradicionais da nossa terra-natal. Por que estes policiais se comportaram daquele jeito, usando meios tão violentos? Por que eles não conseguem continuar a integridade e honestidade da revolução? Porque eles não são filhos da revolução? Por que a corrupção e abuso de poder permeiam em todo lugar? Só há uma única resposta certa: o fogo da revolução se apagou. As virtudes da revolução não mais existem. A fonte de inspiração, que é o ideal da revolução, não mais existe.
Quando não conseguimos manter nossa Mente de Amor – nossa Bodhicitta – nós deixamos de ser “companheiro do caminho” uns para os outros ou “amigos de um caminho comum”; mesmo que possamos nos referir a nós mesmos como budistas ou discípulos de Buda. Quando as aspirações dos revolucionários deixam de existir, quando somos corroídos pela corrupção e abuso de poder, deixamos de ser “camaradas” uns dos outros. Quando temos nossas aspirações, nossa Mente de Amor, nossa irmandade, não precisamos mais procurar pela felicidade na direção do dinheiro, fama, poder e prazeres sensuais. Juntos, vivemos uma vida simples e mais saudável. Thây tem se sentado em meditação com vocês, comido em consciência plena com vocês, respirado com vocês e organizado retiros com vocês. Thây tem encontrado muita felicidade nestes momentos de vida comunitária. Os lutadores da revolução também eram assim. Eles viviam alegremente juntos porque eles partilhavam um ideal comum e eles eram capazes de abrir mão daquilo que traria dependência e restrições. Eles lutavam juntos lado a lado, tolerando juntos a tempestade e o vento, porque eles tinham a camaradagem e se mantinham aquecidos pelo fogo sagrado da revolução.
Falar deste jeito não significa dizer que hoje não possamos reacender o fogo da Mente de Amor que pode ter se apagado dentro de nós. Não significa que não podemos reacender o fogo sagrado da revolução que se extinguiu. Quando vocês entraram na Sanga, o fogo de sua Mente de Amor estava flamejando. Por isso muitos jovens monásticos, depois de terem lido o livro “Falando para os jovens monges e monjas” e terem feito contato com a Sanga, foram capazes de reacender suas Mentes de Amor. Por conseguinte, começamos a morar juntos genuinamente e alegremente porque o fogo da aspiração estava aceso brilhantemente dentro de nós. E assim a cada dia que passava, multidão de jovens chegava. Este influxo criou medo no coração das pessoas. Estas pessoas enviaram pessoas delas para se infiltrarem em nossas comunidades em Plum Village, Deer Park, Tu Hieu, Bát Nhã e em todo lugar; para ver o que estávamos realmente fazendo, e investigar como poderíamos atrair tantas pessoas jovens tão rapidamente.
Temos algum segredo? Não temos segredo algum! Se há tal segredo, este deve ser porque nós sabemos como viver verdadeiramente um com o outro em espírito de irmandade. Sabemos como abrir mão das buscas que podem nos trazer apego e dependência. Temos uma aspiração profunda de praticar, para ajudar os outros e servir todos os seres vivos. Vivemos cada momento com esta aspiração. Por isso, quando os jovens interagem conosco, os corações deles também se acendem com esta aspiração. Isto certamente pode ser realizado dentro de uma comunidade como também dentro de uma organização revolucionária. Somente se as pessoas viverem verdadeiramente umas com as outras, somente se puderem reacender o fogo do ideal revolucionário, somente se as pessoas tiverem a energia derivada de suas aspirações, a corrupção e o abuso de poder serão vencido. Então àqueles que se unem ao partido não mais serão exploradores e oportunistas.
Se àqueles que vêm nos investigar pudesse ver esta verdade, ambos os lados se beneficiariam. Poderíamos praticar em paz, e eles, aprenderem formas de reavivar a confiança e ideais deles. Infelizmente, estas pessoas não conseguem compreender tal verdade e, por conseguinte, suspeitam; e desta suspeição nasce o medo. Por causa deste medo elas usam meios antiéticos de dissolver uma comunidade de jovens que eles sentiram que não poderiam controlar. A verdade é – porque seria necessário controlar o cultivo de virtudes?
Uma vez, viveu um rei muito curioso para descobrir como uma cítara poderia produzir sons tão mágicos. Ele deu ordens de partir a cítara em pedaços para descobrir o seu segredo. Ela foi dividida em centena de partes, mas ele não conseguia encontrar a raiz do som mágico que ele tinha ouvido. Para saber o seu segredo, a pessoa teria que se sentar quietamente e observar cuidadosamente a cítara e a maneira como ela é tocada, não é a despedaçando. A Sanga também é como uma cítara. Participando dela e a observando cuidadosamente, a pessoa compreenderá o milagre da Sanga. Por que a pessoa teria que dividir a sanga em muitos pedaços enviando cada pessoa para casa? Ao fazer isto, a pessoa perde a oportunidade de aprender. Os veteranos da revolução e todos nós mantemos um pouco do fogo da revolução dentro de nossos corações, por causa da verdade exposta a partir da crise em Bát Nhã, todos nós temos a chance de olhar profundamente para reacender a chama maravilhosa que sempre esteve dentro de nós.
(Esta carta ainda continua. Depois Thây enviará mais pra vocês)

Viva lindamente cada dia!

Caminhada pela paz em Paris

Caminhada pela paz em Paris

No domingo, 11 de outubro de 2009, vários monges e monjas de Plum Village e praticantes laicos da França, Alemanha, etc. organizaram uma meditação caminhando da sede da UNESCO até a Praça dos Direitos Humanos, Trocadero, Paris – na frente da Torre Eiffel para clamar por ajuda em apoio aos monges e monjas em Bao Loc, Vietnã, que estão enfrentando muitas dificuldades.

A meditação caminhando começou às 14h com a Irmã francesa Giác Nghiêm partilhando sobre a prática da meditação andando. Tinham mais de 500 pessoas participando do evento, cada uma delas segurava uma flor e tinha vindo andando pacificamente desde sede da UNESCO, passando por alguns parques e ruas principais na frente da Torre Eiffel, terminando na Praça dos Direitos Humanos, Trocadero. Depois disso, cada participante colocou no chão da Praça uma flor representando um monástico que está enfrentando dificuldades em Bao Loc. A meditação caminhando foi encerrada com uma sessão de meditação silenciosa e evocação do nome de Avalokiteshvara.

O Corpo de Diamante – Carta de Thây aos irmãos e irmãs monásticos do mosteiro Bát Nhã

Carta de Thây aos irmãos e irmãs monásticos do mosteiro Bát Nhã

Blue Cliff, 7 de outubro, 2009

Aos meus filhos e filhas de Bat Nha,
Escrevi “meus filhos e filhas de Bát Nhã” e não “meus filhos e filhas em Bát Nhã” como antes, porque mesmo que vocês não estejam mais morando em Bát Nhã, vocês continuam carregando o nome da Sanga de Bát Nhã. Vocês e Bát Nhã são um. Onde quer que vades, carregarão Bát Nhã consigo, e Bát Nhã se tornou um corpo diamante indestrutível. No gatha de abertura, que recitamos antes de ler o Sutra do Diamante, tem a expressão “corpo  de diamante”, da seguinte maneira:
Como podemos transcender nascimento e morte e alcançar um corpo de diamante indestrutível?
Como praticarmos para que possamos varrer todas as ilusões?
Pedimos ao Buda, a partir de sua compaixão por nós,
Que abra o armazém do tesouro para todos nós.
Por favor, explane os seus maravilhosos ensinamentos!
Bat Nha se tornou legendária, um corpo diamante – ninguém mais pode destruí-la. Bát Nhã é um lótus fragrante que floresceu da lama da ignorância, do medo, da ansiedade, corrupção e abuso de poder. Bát Nhã passou para a história. E vocês são afortunados de terem tido a oportunidade de contribuir com suas partes na manifestação do lótus Bát Nhã. Bát Nhã se tornou uma parte da herança cultural da nossa terra natal.
Os meus filhos e filhas de Bát Nhã não estão agora tomando refúgio somente no Templo Phuoc Hue, mas também estão presentes em muitos lugares, dentro e fora do país. Onde quer que vocês estejam, têm o lótus Bát Nhã em seus corações. Este lótus é a aspiração de praticar e ajudar os outros. Esta é a Mente de Iniciante. Esta é a Mente de Amor. É a fonte de energia que nos capacita a continuar sendo quem somos; ajudando-nos a não nos tornar corruptos ou comprados ou vencidos. Thây está muito feliz, porque Thây está escrevendo esta carta para confidenciar isso com vocês. Sob a assinatura de “Nguyen Lang”, Thây escreveu ao presidente do país e aos intelectuais do Vietnã e do além mar, pedindo-os para intervirem e se conscientizarem sobre a situação em Bát Nhã. E esta é a carta que Thây escreve para vocês.
Em primeiro lugar, Thây quer que vocês saibam que o Templo Phuoc Hue, onde muitos de vocês estão hospedados, também é o local onde Thây viveu por muitos anos na década de 1950. Naquele tempo, Thây ainda era muito jovem e o Templo Phuoc Hue ainda era muito simples, não tão desenvolvido como está hoje. Por trás do templo tinha um jardim de chá que tinha umas mil árvores. Thây tinha uma pequena cabana de sapé bem dentro do jardim de chá. Lá Thây vivia sozinho. Na cabana, só tinha uma cama e uma mesa. O Venerável Thai Thuan provavelmente pode lhes mostrar onde era o local da cabana. Uma noite,Thây sonhou com a mãe dele; ela tinha a mesma aparência de antes, com os seus cabelos pretos, longos e brilhantes. Enquanto Thây falava com a mãe dele com tamanha felicidade, ele de repente se acordou. E Thây lembrou-se que a sua mãe já tinha falecido muitos anos atrás. Thây se levantou e abriu a porta para caminhar ao ar livre. Não tinha sanitário na cabana, e como o vilarejo Cong Hinh (que é o vilarejo onde o Templo Phuoc Hue está situado) situava-se nas montanhas, cercado de árvores de chá, a pessoa podia urinar bem ao meio das árvores de chá. Assim que Thây pisou fora da cabana, Thây entrou em contato com o brilho do luar que cobria o vale de chá por inteiro. Era uma lua minguante, muito brilhosa, bela e gentil. A terra e o céu estavam calmos. E Thây teve a sensação de estar sendo envolvido nos braços de sua mãe; o amor de mãe era gentil como o luar da madrugada. De repente, Thây se iluminou com o fato de que a mãe dele nunca tinha morrido; que a mãe dele sempre esteve presente para ele, e que a verdadeira natureza dela não nascia nem morria. Toda tristeza e saudade que Thây vinha sentindo depois que perdeu sua mãe desapareceram de uma vez por todas, e ele sorriu ao luar da madrugada. Thây se lembra ter contado esta estória em algum outro lugar, talvez no livro Fragant Palm Leaves [Fragrantes folhas de palmeira]. Thây sabe que o vale do chá não mais existe. Que a cabana de sapé também não mais existe. Mas se vocês tiverem a chance de fazer meditação caminhando em volta do Templo Phuoc Hue à noite quando houver lua, visualizem aquela noite maravilhosa e, olhando para o alto em direção a lua, vocês verão Thây e a mãe de Thây sorrindo para vocês.
Durante a turnê de ensinamento 2009 nos Estados Unidos, um milagre aconteceu, e este foi o retiro em Estes Park, Colorado. Este retiro tinha 980 retirantes vindos de muitos estados diferente. Ele começou no dia 21 indo até 26 de Agosto de 2009. Entre os retirantes havia cerca de 50% que nunca tinham se encontrado com Thây, ouvido ensinamentos de Thây, ou participado em um retiro com Thây. Eles só conheciam Thây através de seus livros publicados nos EEUU. Eles vieram ao retiro com a intenção de ouvir diretamente os ensinamentos e orientações de Thây. Muitos deles tiveram que voar muitas horas para chegar a Denver. Depois eles tiveram que pegar ônibus para subir a montanha para participar do retiro. A Associação de Jovens Cristãos YMCA que está localizada em Estes Park, tem capacidade de prover acomodação, alimentação e sanitários para mais de mil pessoas. Ela está situada a mil metros acima do mar, por isso lá é muito fresco e frio. As montanhas são majestosas e sedutoras. A cada dois anos, Thây vai lá guiar retiros e todo retiro é cheio de gente. Mas desta vez, Thây não pôde participar e guiar o retiro por que estava doente. Os médicos do Hospital Geral de Massachusetts (MGH) depois de ter feito o diagnóstico, recomendaram que Thây não guiasse o retiro em Stonehill College em Massachusetts, e deveria também cancelar o retiro em YMCA para tratar de sua infecção pulmonar. Os médicos disseram que Thây tinha que ficar no hospital pelo menos uns 14 dias para tratamento. Doutor Sicilian – conhecido por sua especialidade em tratamentos de infecção pulmonar causados por pseudômonas aeruginosa, e responsável pela unidade de tratamento intensiva no décimo segundo andar do hospital – aconselhou a Thây que se internasse imediatamente naquela noite para que o tratamento fosse iniciado. Mas Thây decidiu voltar a Stonehill para completar aquele retiro, antes de voltar para ser internado naquele hospital. O tema do retiro em Stonehill era Seja paz, seja alegria, seja esperança. O retiro tinha começado no dia 11 de agosto de 2009, e no dia 13 de agosto de 2009, por volta das 17h, Thây teve algum tempo livre para ir fazer check-up. Algumas semanas antes, sintomas da infecção pulmonar crônica tinha se tornado severa, e ocasionalmente Thây via sangue vivo fresco ou velho e escuro em suas observações. Depois de cinco horas de espera e testes, todos os médicos aconselharam que Thây iniciasse o tratamento imediatamente, sem delongas.
Thây voltou à faculdade à meia-noite e, na manhã seguinte, foi para a meditação sentada com a Sanga, deu ensinamento de Darma, e participou da meditação caminhando como se nada tivesse acontecendo. Ninguém sabia que Thây estava doente. Todos disseram que os ensinamentos de Darma nos últimos três dias de retiro foram muito poderosos. Thây Pháp De disse a Thây: “Você estava luminoso durante estes ensinamentos de Darma”. Somente os irmãos e irmãs mais velhos sabiam que Thây estava doente e que Thây estava indo se hospitalizar logo que o retiro terminasse. No dia 14 de agosto houve uma reunião especial com os professores de Darma onde eles foram informados que Thây seria hospitalizado na segunda feira, 17 de agosto, e que Thây não iria voar para Denver para guiar o retiro. Naquela reunião, os professores de Darma delegaram uns aos outros as responsabilidades de guiar o retiro no lugar de Thây. Todos tomaram a iniciativa de apresentar-se como voluntário, sem esperar ser convidado ou solicitado. O retiro em Stonehill também tinha mil retirantes. Com exceção dos professores de Darma monásticos, ninguém sabia que Thây não iria participar do retiro em YMCA, Estes Park, inclusive os monges e monjas. Somente quando tinha quase chegada à hora de entrarmos no ônibus para ir ao aeroporto foi que os irmãos e irmãs souberam que Thây não iria voar com eles.  Esta foi a primeira vez que isso aconteceu: Thây não ter condições de participar de um retiro, e a Sanga ter que guiar o retiro no lugar dele. O time da organização estava ciente de que a hora estava chegando, não havia tempo suficiente para adiar o retiro, porque tudo estava preparado, desde acomodação, alimentação, inscrição, até as passagens aéreas; alguns inscritos de outros estados já estavam a caminho do retiro de carro ou ônibus.
Com certeza, haveria muitos retirantes decepcionados ou furiosos no dia de chegada, quando eles descobrissem que Thây não poderia estar presente. Muitos deles tinham lido livros de Thây por muitos anos, e esta era a primeira oportunidade deles se encontrarem com Thây e praticarem com Thây. Teve gente que prometeu aos amigos e parentes que depois do retiro voltaria para contar-lhes sobre suas experiências com Thây. Quanto maior a esperança e expectativa fossem, maior a decepção e tristeza seriam. Os irmão e irmãs monásticos voaram para Denver com aquela consciência, mas todos tinham a coragem de assumir a responsabilidade. Aquela era uma oportunidade deles provarem que eram dignos da confiança de Buda, dos patriarcas e de Thây. A oportunidade era agora ou nunca. Portanto, todos estavam determinados, e todos uniram esforços para guiar o retiro com todos os seus corações e mentes. A energia assim como a irmandade nunca tinha estado tão estável e forte quanto nestes dias.

Neste ínterim, Thây começou o tratamento em MGH, o maior e mais bem conceituado hospital no nordeste dos Estados Unidos. Thây foi hospitalizado no dia 17 de Agosto e na manhã do dia 21 de agosto, Thây escreveu uma carta aos retirantes em YMCA, Estes Park, Colorado. Do hospital, Thây foi informado que ao ouvirem a carta de Thây naquela noite muitas pessoas choraram, monásticos e também leigos. Depois de ler a carta, os irmãos e irmãs invocaram o nome do Bodisatva Avalokiteshvara, e depois deram uma orientação sobre as práticas durante todo o retiro. Após a orientação, toda a comunidade praticou o Nobre Silencia até depois do almoço do dia seguinte. A prática do Nobre Silêncio ajudou muito o retiro. Muitas pessoas tiveram a oportunidade de reconhecer e abraçar suas decepções e reações – formações mentais que surgiram quando eles receberam as notícias de que Thây não estaria presente no retiro. Na meditação caminhando da manhã seguinte, o café da manhã em silêncio e a primeira palestra de Darma ajudaram muitos retirantes a abraçarem e transformar a decepção, preocupação e outras formações mentais negativas.

TUDO O QUE QUERO É PRATICAR MINHA FÉ

Carta de uma noviça aspirante do mosteiro Bát Nhã
Sou uma menina nascida e criada numa cidadezinha costeira do Vietnã durante os tempos de paz. Embora o Vietnã seja pequeno e mais pobre do que outros países desenvolvidos no mundo, eu me orgulho de ser uma cidadã desta nação singular. Eu aprecio a beleza despretensiosa, a rica cultura, o seu antigo espírito e mesmo a sua tumultuosa história que o Budismo Zen partilha desde o nascimento desta nação, dos primeiros dias das dinastias Ly e Tran. Sinto que o meu amor pelo Vietnã é tão natural para mim quanto a minha devoção pelo Budismo.
Deixar todas as ambições mundanas para trás para ser uma monja noviça, fazer tarefas diárias modestas, varrer e esfregar, aprender a viver a fé Budista, não significa que eu tenha desistido de minha vida ou do meu país – muito pelo contrário. Eu me juntei ao mosteiro não como uma tentativa mal orientada de fugir do mundo, mas de dedicar minha vida a servir a humanidade. Eu desejo seguir nossos ancestrais budistas e praticar a verdadeira fé de amar os meus compatriotas camponeses. Eu aspiro me tornar uma monja budista que se casa com a não-violência (nenhuma luta, nenhuma matança, nenhum roubo, nenhuma fornicação, nenhuma mentira, nenhuma droga ilícita/álcool, nenhum divertimento degradante) e ajudar a diminuir os males de nossa sociedade. O ensinamento do mosteiro Bat Nha reforça a autoconsciência e responsabilidade para com os outros; nós passamos a compreender como os sacrifícios de gerações anteriores pavimentaram o caminho à liberdade para nós, e a apreciar inteiramente o esplendor simples de nossa cultura para que nunca nos sintamos inferiores em comparação aos espalhafatosos espetáculos estrangeiros.
Ao lado das companheiras noviças eu aprendo a viver modestamente, a cultivar um coração gentil e aberto para um amor maior. Ser capaz de praticar abertamente minha religião pacífica também fomenta paz e bem estar entre os membros da minha família e comunidade.
Minha vida no mosteiro está destituída de confortos modernos como televisão ou telefone. Eu não tenho dinheiro ou conta bancária; abandonando ganhos sociais privados eu partilho a vida comunal rústica do trabalho árduo, refeições leves, e vestes simples. No entanto eu me sinto em paz e muito mais contente do que antes de me unir ao mosteiro. Esta paz vem de não desejar ser alguém diferente do que sou; não querer mais do que eu já tenho, e ser verdadeira comigo e com os outros. Amando a todos e, no entanto, sem dever a ninguém, estou livre dos apegos comuns que levam a preocupação e medo.
Rememorando o meu lar secular de antes, eu me lembro que havia muito afeto na minha família, mas não conseguíamos deixar de ferir uns aos outros por causa dos nossos egos interesseiros. O mesmo cenário se repetia na comunidade como um todo, composta por injustiças sociais com pobreza miserável ao lado de riqueza e corrupção obscenas. Ricos e pobres indistintamente buscavam alívio de suas misérias em remédios psiquiátricos, drogas ilícitas e divertimentos que entorpecem a alma, conduzidos pelo estresse inexorável às doenças mentais, suicídios, prisões… eu sofria por causa das misérias humanas à minha volta e dentro de mim, sabendo que os meios materiais não conduziam a felicidade real mas não sabendo como me libertar dos ciclos destrutivos de julgar e culpar. A minha persistente busca por uma melhor maneira de viver, primeiro através de livros e experiências pessoais, depois através do discernimento espiritual, levou-me a Bát Nhã. Aqui eu finalmente encontrei o meu lar espiritual onde eu podia viver no caminho do amor. Aqui estou aprendendo a respirar, viver, jogar e trabalhar junto com mais de trezentos parentes espirituais; em pouco tempo eu transformei carne e osso em uma nova pessoa mais benevolente e feliz! Bat Nha se tornou o meu segundo lar, e nenhum tipo de dificuldade pode me afugentar daqui.
Sem eletricidade, sem água, sem comida – sem problema! Eu nem mesmo me importo com os impiedosos alto-falantes cuspindo acusações venenosas dia e noite em nossos ouvidos. Esta tortura é uma chance para nós praticarmos amor e não-violência dirigidos as pessoas que infelizmente estão propensas a violência e são desamáveis. Ao prover oportunidades tremendas de aprendizado da paciência, aceitação e profunda apreciação pela vida no momento presente, estes difíceis desafios nos ajudam a desenraizar ansiedades escondidas e nos transformar a partir de dentro. Não importa o quão severas sejam as minhas circunstâncias externas, eu sou grata a todos e não guardo ressentimentos.
O mosteiro Bát Nhã é uma comunidade de fé pacífica. Através da compreensão e amor nós objetivamos nos transformar e contribuir para o melhoramento de nossa sociedade. Nós pedimos somente liberdade para praticar nossa fé! Por que o governo estimula a destruição de nosso lar? Por que nós cidadãos da lei fomos sujeitos a despejos violentos e a cruéis pancadarias? Por favor, não nos forcem a abandonar o nosso lar religioso e treinamento! Por favor, não separem os nossos irmãos e irmãs! Tudo o que queremos é praticar a nossa religião em paz!
Tam Thuong

Monja Noviça [aspirante à vida monástica]

A última Meditação Caminhando

Escrito por uma jovem irmã monástica do Mosteiro Bát Nhã
1 de outubro de 2009
No domingo, 27 de setembro de 2009, nós tivemos a oportunidade de praticar a meditação sentada e depois fazer a meditação caminhando juntos ao redor do salão de meditação “Asa de Garuda”. Estava chovendo torrencialmente naquele dia. As vestes monásticas dos meus irmãos e irmãs estavam ensopadas, mas continuamos a andar juntos uns dos outros em paz, e com amor e compreensão. Dentro de mim, a mente de amor e de fé reacendeu brilhantemente.
Nós nunca imaginaríamos que aquela seria a nossa última meditação caminhando naquele adorável pedaço de terra, que era cheio de vida. A atmosfera ainda era pacífica, e todos estavam prontos para a próxima atividade [um Dia de Consciência Plena]. Em nosso curso “O coração dos ensinamentos de Buda”, o tópico sobre os quatro nutrientes iria ser apresentado, mas teve de ser cancelado. Talvez aquela apresentação tenha se tornado a palestra não-verbal de Darma, manifestada através do nosso insight, amor e profunda irmandade.
Às 8h da manhã, todos nós retornamos aos nossos quartos e sentados em nossas camas ficamos esperando. A verdade era que eu não sabia o que eu estava esperando; eu somente pensava que seria a nossa programação rotineira de domingos dos últimos meses. Não tinha tido um domingo sem que tivéssemos ouvido gritos e maldições. Só sabíamos sentar quietos e manter nossas mentes calmas e receptivas.
Às 9h da manhã, nós [irmãs do alojamento Nuvem da Montanha] recebemos as notícias de que o alojamento dos irmãos Fragrante Folha de Palmeira estava sendo atacado. Tudo estava sendo destruído e jogado na chuva. Muitos irmãos mais velhos e mais novos foram arrastados para fora e levados embora…. Estávamos chocadas com as notícias, e não acreditávamos que aquilo pudesse ser verdade. Logo depois disso, eu vi que um irmão mais velho e um jovem noviço estavam correndo em direção ao alojamento Nuvem da Montanha em suas vestes monásticas ensopadas. Eles só tiveram tempo suficiente de trazer com eles os seus Sanghatis [mantos monásticos de cerimônia] enrolados nos ombros…
Às 10h 30m, tivemos permissão de ir pegar comida. Eu estava no grupo da limpeza, por isso fiquei esperando para limpar e guardar as coisas de volta antes de ir comer. Logo que sentei na esteira de palha e peguei a minha tigela da ronda de mendicância, disseram-me que eu deveria pegar minhas coisas imediatamente. Todos nós deveríamos colocar no chão nossas tigelas de mendicância e ir empacotar nossos pertences. Em nossas mentes, só pensávamos em levar conosco nosso Sanghatis, tigelas de mendicância, certificados monásticos, e documentos de identificação. Tudo bem se as pessoas chegassem e levassem o resto de nossos pertences para seus próprios usos. Compreendíamos que elas eram apenas vítimas da pobreza e da luta constante. Elas eram desafortunadas de terem crescido e vivido em ambientes negativos, de forma que facilmente receberam uma “lavagem cerebral” e foram incitadas por informações distorcidas. De fato, elas merecem amor tanto quanto nós merecemos. Somos vítimas da violência. Mas elas são vítimas da ignorância e da falta de reflexão. Apenas 70 ou 100 mil dongs [moeda vietnamita] foram suficientes para alugá-las para fazer algo pernicioso. Quão lamentável isto é! É este o valor de um ser humano? E os dias e meses seguintes, quando elas estiverem sofrendo, atormentadas pelas suas próprias consciências – quem irá pagar o salário delas?
Às 11h 30m, seis homens andaram ao redor do nosso alojamento e bateu à porta das irmãs gritando: “As monjas tem que deixar este lugar. Não nos façam ter raiva e ferir vocês. Se vocês não partirem deste local, terão de sofrer as conseqüências”. Todos nós sentávamos próximas umas das outras calmamente. Ouvíamos os sons das janelas de vidro sendo quebradas e caindo. As pessoas entraram em cada quarto e nos arrebanharam para fora. Elas seguravam longas barras de ferro, que seriam usadas para nos bater se resistíssemos. Uma a uma, andamos para fora do nosso quarto e fomos para o jardim da frente. Chovia torrencialmente. Talvez os deuses do céu também estivessem chorando por nós.
Quando todo mundo estava lá embaixo no jardim da frente, nós verificamos entre nós e descobrimos que a jovem irmã Cong Nghiem não estava conosco. Ela teve um acidente recentemente e não conseguia se mover. Nós implorávamos aos tios [os homens atacantes] que nos permitissem retornar e carregá-la lá pra baixo. Todas nós ficamos muito comovidas olhando nossa irmã mais velha carregando nossa irmã mais nova nas costas. Quanto mais olhávamos, mais sentíamos dó também dos tios. Teve um tio com cerca de 50 anos, que vestia um capacete e andava como um manco. Enquanto ele estava estraçalhando as janelas, cortou-se e estava sangrando muito. Nós corremos até o armário dos primeiros socorros, que estava completamente destruído. Tivemos sorte de encontrar algumas bolas de algodão, gaze e álcool para limpar e cobrir a ferida dele. Olhando dentro dos olhos dele, eu vi que ele estava profundamente comovido; ele compreendeu que nós não o odiávamos, mas pelo contrário, cuidávamos dele de todo o coração. A verdade é que durante este tempo, dentro de mim, não havia alguém para amar ou alguém para odiar. Eu não pensava sobre o que eles tinham feito a nós. Tinha somente aquela pessoa que precisava da nossa ajuda. Depois de cobrirmos a ferida dele, ele baixou a cabeça e nos agradeceu e ficou quietinho num canto, olhando-nos ali em pé próximas uma das outras debaixo da chuva e da tempestade. Ele parou de ser violento. Depois eu o vi partindo calmamente. Naquele momento, todos nós estávamos juntos e a salvos. Ninguém estava preso por dentro. Sentimo-nos tão felizes ao compreender que amávamos uns aos outros, e que poderíamos sacrificar nossas vidas uns pelos outros, pelos nossos ideais, e por este caminho de compreensão e amor.
Por volta das 11h da manhã, cerca de 100 mulheres e homens desceram até o alojamento das irmãs. Todas as vezes que viam um monge, eles pulavam, rasgavam as roupas dele e batiam nele. Quando tentávamos proteger nossos irmãos e irmãs, sofríamos o mesmo destino – eles nos derrubavam; as mulheres usavam sombrinhas e rochas para bater e chutar as nossas mãos e costas. Algumas até mesmo nos esbofetearam no rosto. Mas nós só sabíamos agüentar ou nos esquivar. Não fizemos nada mais. Enquanto tudo aquilo acontecia a nós, não derramamos uma gota de lágrima, chorando ou se lamentando. Somente sentíamos que nossa sociedade hoje em dia está cheia de violência, ódio e medo. Por causa disto, precisávamos proteger e salvaguardar nossos ideais, trazendo compreensão e amor à humanidade. Dói eu ver que a nação vietnamita, amorosa, gentil e étnica – que os quatro mil anos de história pelos quais o Vietnã foi elogiado, agora se perderam nas mãos do povo vietnamita. A dor, a vergonha, é grande demais. Tudo bem o espancamento e desalojamento, porque sendo monges e monjas, nós não temos propriedades para nos apegarmos. A única coisa que nos dói é que a dignidade e humanidade de nossa sociedade tenham sido rebaixadas a um nível tão baixo. Eu pensei para mim mesma: O quão feliz eu me sentia lendo a história daqueles das dinastias Ly e Tran antes de mim! Temos o direito de elevar nossas cabeças e sentir orgulho nacional. No entanto, nossos filhos e as futuras gerações, quando relembrarem os eventos em Bát Nhã, terão que baixar a cabeça com vergonha. O tempo apagará todos os vestígios físicos, mas as feridas dentro do coração, a vergonha, o ódio, o medo, e a violência serão transmitidas para sempre. Com uma transmissão como estas, a ética de nossa sociedade não poderá fazer outra coisa senão declinar vertiginosamente. O quão lamentável seria isso! Por causa disso, nós, irmãos e irmãs, falamos a partir dos nossos corações; não podemos plantar e espalhar mais sementes negativas como essas. Temos que aguar esta terra árida e espinhosa da mente humana com as gotas do néctar benfazejo, para que possamos reviver as flores da compreensão, amor, inclusão e eqüidade. Somente por isso nós – que estamos carregando em nossos corações o grande amor, o grande voto – estamos determinados a não permitir que estas sementes prejudiciais se desenvolvam mais no coração de nosso povo. Nós amamos o som da frase  “minha terra natal” [pátria, em inglês, “motherland”, traduz literalmente por terra-mãe]. Amamos o povo vietnamita. Mesmo que eles nos acusem como traidores, mesmo que eles nos batam, nós nunca quereríamos que acontecesse de os pintinhos de uma mesma galinha atacar e machucar uns aos outros.  Então, desde o momento em que fomos forçados a sair para a rua e ficar em pé na chuva, aceitando acusações e pancadarias, suportando as águas sujas arremessadas em nossas faces, nós continuamos de pé próximas umas das outras e protegendo uma à outra. Embora tenhamos sido acossadas, espancadas, puxadas e empurradas, não abandonaríamos umas as outras.
Às 17h daquele dia, fomos forçadas para fora do portão do alojamento Nuvem da Montanha. Foi doloroso para nós ver que não poderíamos proteger nossos irmãos mais velhos Pháp Hoi e Pháp Sy da violência dos tios. Nós os olhávamos sendo levados com profunda dor. Eles tentaram nos afugentar, mas nós todas ficamos em pé silenciosamente sob a chuva. Estávamos com frio e fome. Somente quando o tempo escureceu lá fora, nós calmamente andamos para o alojamento “Coração Cálido” de nossas irmãs. Ficamos comovidas com a maneira como elas nos cumprimentaram e nos receberam. Elas foram capazes de acender duas lareiras, para que pudéssemos nos aquecer. Então elas cozinharam talharim para nós comermos. Todo mundo sentia um ardor nos olhos. Era da fumaça ou do amor um pelo outro? Naquela noite, o alojamento “Coração Cálido” foi deixado temporariamente em paz. Nós sentamos próximas umas das outras e olhávamos umas para as outras cuidadosamente por muito tempo. Sabíamos que seria difícil para nós estarmos unidas daquele jeito novamente. Mesmo estando cansada, eu não consegui dormir. Assim que eu me deitei, a imagem de Thây Pháp Hoi e dos outros irmãos sendo levados surgia em minha mente. Eu temia que aquela tivesse sido a última imagem e a última vez que eu pudesse vê-lo. Se isto fosse verdade, nós então apreciaríamos ainda mais profundamente o silencioso sacrifício dele. Afirmaria ainda mais nossa confiança em nosso caminho de prática. “Repouse seguro, querido Irmão mais velho. Você está presente em nós. Você nos transmitiu a sua tranqüilidade, sua calma e sua solidez nestes momentos. Nós nunca o perderemos”. Naquela noite, a chuva e a tempestade continuavam fortes. Eu sentei e olhei em volta do nosso quarto, o dormitório “Phuong Vy 2”. Vendo minhas irmãs dormindo, meu coração movia-se como ondas de amor. Se o meu sacrifício trouxesse paz a elas de forma que elas pudessem viver e praticar, eu o faria. O medo no meu coração deu lugar a um amor poderoso. Dois córregos de lágrimas corriam e corriam. Estas foram as primeiras lágrimas derramadas desde os acontecimentos em Bát Nhã até agora. Estas gotas de lágrimas vieram de uma fonte de amor ilimitada.
Às cinco da manhã seguinte, nós fomos para o ônibus, uma por uma, para irmos ao templo Phuoc Hue. Eu estava na segunda viagem. Olhando os rostos de minhas irmãs – tão jovens e inocentes e puras – meu coração sacudia com uma dor lancinante. Começamos a cantar “Aqui está nossa amada Bat Nha”. Nós só tínhamos começado a cantar e os olhos de todos se tornaram vermelhos e cheios de lágrimas. Quando chegamos à parte “Aqui está nossa amada Bat Nha, com aqueles que carregamos em nossos corações o Grande Voto de viver juntos e construir a Terra Pura bem aqui…” não conseguíamos continuar a cantar. Somente chorávamos. O motorista nos viu, e ele também ficou comovido e chorou.

Nunca tínhamos apreciado tanto cada momento juntas antes. Para podermos ficar juntas, estávamos determinados a suportar qualquer quantidade de pobreza, dor e sofrimento. Somente cinco minutos se passaram em tristeza profunda; então nós continuamos a cantar nossas canções de prática. Cantávamos e cantávamos até que o ônibus parou em frente ao templo Phuoc Hue. A partir daquele momento em diante, nossa vida passou para uma nova página, não menos bonita ou majestosa.

Personalidades públicas ilustres do Vietnã Ousam Falar Abertamente Sobre Bat Nha

“Está chocando o mundo, e prejudicando a imagem do Vietnã”, protestam dezenas de líderes no Vietnã contra as sanções severas aos monges e monjas do mosteiro Bat Nha. Numa inédita carta aberta ao Governo, difundida através da BBC, Voz da América, Rádio Internacional da França e importantes blogs e web sites, eles ousaram se pronunciar em apoio aos monges e monjas, e contra o encobrimento da verdade pelo governo.

O que é muito impressionante, dizem eles, é que todo o sistema oficial de comunicação do Vietnã tenha, ao que parece, ignorado durante todo o tempo tudo o que está acontecendo no Mosteiro Bat Nha. Líderes intelectuais, cientistas influentes, e renomadas figuras do Partido Comunista todos assinaram a carta ao Presidente, Primeiro Ministro e Parlamento.

Os jovens monges, monjas e aspirantes estão “em perigo desesperado”, dizem eles, visto que as autoridades locais deram ordens para que eles fossem atacados e expulsos à força “por razões muito vagas”.

Eles estão profundamente preocupados com o fato das ações terem sido visivelmente ilegais e aconteceram na presença de muitos policiais da região presentes no cenário; e que todos os clamores das vítimas do ataque por ajuda às autoridades provincial e distrital foram ignorados.

Eles solicitam investigação imediata de acordo com a lei do Vietnã; a proteção dos direitos básicos de monges e monjas enquanto cidadãos vietnamitas; e que seja suspensa a ordem de aferição da mídia nacional proibindo reportagens livres e transparentes dos ataques.

LEIA O TEXTO COMPLETO DA CARTA ABERTA ABAIXO – ou em vietnamita na Radio France International

Hoàng Hưng – Petição para resolver o incidente que aterrorizou o Mosteiro Bát Nha

Data: 5 de outubro de 2009, 21h: 41m
Autor: Hoàng Hưng
Departmento: Governo – Sociedade, Religião.
Assunto: Incidente em Bát Nhã

DESTINATÁRIO:

Respeitosamente endereçado a todos aqueles que tomam conta do destino dos quatrocentos jovens monges e monjas e aspirantes moradores do Mosteiro Bát Nhã, Lâm Dng, Vietnã.

Por iniciativa de vários amigos, no dia 5 de outubro de 2009, uma petição que trata do incidente do ataque ao Mosteiro Bát Nhã foi enviada ao gabinete do Presidente da Assembléia da República Socialista do Vietnã, ao gabinete do Primeiro Ministro da República Socialista do Vietnã, e ao gabinete do Parlamento da República Socialista do Vietnã. Entre as primeiras 67 assinaturas desta petição estão assinaturas de muitos líderes acadêmicos, artistas e autores de jornais muito conhecidos dentro e fora do país.

Para assegurar a rápida transmissão do conteúdo desta carta ao Presidente, Primeiro Ministro e Líder do Parlamento, além dos canais oficiais nós também pedimos respeitosamente à web site Bauxitevietnam, ao blog Talawas, ao fórum Din Đàn, e canais de notícias do BBC, RFI, RFA que o disseminassem.

Nós ainda continuamos a receber assinaturas adicionais para esta petição para juntar à petição que já enviamos aos líderes do Vietnã. Nós podemos ser contatados através deste emaill: thinhnguyenbatnha@gmail.com .

Nós respeitosamente agradecemos a cada um e a todos pela atenção a esta petição e ansiosamente esperamos o vosso apoio.

Em nome de todos os que assinaram primeiro,

Hoàng Hưng
PETIÇÃO

Respeitosamente, à

Sua Excelência Nguyn Minh Triết, Presidente da República Socialista do Vietnã
Sua Excelência Nguyn Phú Trng, Presidente do Parlamento  da República Socialista do Vietnã
Sua Excelência Nguyn Tn Dũng, Primeiro Ministro do Governo da República Socialista do Vietnã

Nós os signatários somos cidadãos vietnamitas de dentro e fora do Vietnã. Nós respeitosamente enviamos esta petição à Vossas Excelências para pedir que intervenham numa situação que está extremamente urgente, relacionada ao destino de 400 jovens monges e monjas e aspirantes budistas que estão sob um perigo desesperador no distrito de Bo Lc, província de Lâm Đng.

Através da mídia internacional e alguns web sites, viemos saber: 400 jovens monges e monjas budistas e aspirantes que tiveram a permissão do governo para estudar e praticar no Mosteiro Bát Nhã, Vilarejo Dambrini, distrito Bo Lc, província Lâm Đng desde 2006, receberam ordens das autoridades locais para serem expulsos do mosteiro por razões muito vagas. No final de junho de 2009 houve um incidente violento, quando centenas de pessoas desconhecidas usando objetos perigosos atacaram e saquearam o Mosteiro Bát Nhã e assaltaram os monges e monjas. No dia 29 de junho de 2009 este grupo desconhecido atacou e feriu e jogou excrementos em um grupo da Associação Vietnamita Budista (VBA) da província de Lâm Dông que tinham ido avaliar a situação no mosteiro. Nos últimos três meses estes monges e monjas e jovens aspirantes moradores do mosteiro sofreram transtornos e foram atormentados. Por exemplo: foi cortado o suprimento de água e eletricidade, o abastecimento de alimentos foi bloqueado, eles foram ameaçados e intimidados, o local de prática religiosa e moradia, atacados, objetos sagrados, roubados. Finalmente, no dia 27 de setembro de 2009, centenas de pessoas desconhecidas invadiram o mosteiro e assaltaram os monges e monjas e jovens aspirantes, usando força para retirá-los do mosteiro.

O ponto chave, que é mais preocupante em tudo isto, é que as ações foram visivelmente ilegais e aconteceram na presença de muitos policiais locais presentes à cena; e que todos os pedidos de ajuda das vítimas do ataque foram ignorados pelas autoridades do distrito e província. No dia 30 de junho de 2009, o VBA da província de Lâm Đng informou sobre o assalto à sanga e enviou um pedido urgente a todos os níveis e setores de autoridade, mas até a presente data ainda não há resolução.

No momento, depois da evacuação dos monges, monjas e aspirantes monásticos eles foram se refugiar temporariamente no templo Phuóc Huê, distrito de Báo Lôc, e um número imenso de forças policiais estão cercando o templo Phuóc Huê e expulsando estes monges e monjas e aspirantes do templo, forçando-os a se dispersarem e voltarem a suas cidades de origem.

O que é tão extraordinário é que todo o sistema oficial de comunicação do Vietnã parece ter ignorado o tempo inteiro tudo o que está acontecendo no Mosteiro Bát Nhã.

Nós vemos que esta situação instável continuada do Mosteiro Bát Nhã está prejudicando severamente a saúde física e mental destes 400 monges e monjas, a maioria dos quais jovens – e o próprio futuro do país. Está chocando o mundo e prejudicando a imagem do Vietnã – um país que respeita o direito de liberdade de crença, e protege a segurança e dignidade das pessoas, e que tem um código de leis rigoroso. Para proteger os direitos legítimos de todos os cidadãos da República Socialista do Vietnã, elevar o modelo da lei, e remover este obstáculo à grande união do povo, nesta situação de urgência que ameaça o país tanto internamente quanto internacionalmente, nós sinceramente requeremos a Vossas Excelências:

Determinar a formação de um comitê para investigar, em todos os níveis de governo, os incidentes do Mosteiro Bát Nhã, em trabalho conjunto com vários acadêmicos independentes. Ao término das investigações, por favor, divulguem os resultados, e incriminem cada pessoa e cada ato ilegal devidamente de acordo com a lei.

Que, enquanto se espera o término das investigações, medidas sejam tomadas para proteger a segurança dos jovens monges e monjas e aspirantes, e assegurar que eles tenham condições de conduzir as vidas deles em paz.

Entregar aos cuidados da VBA a responsabilidade de organizar a prática destes jovens monges e monjas e aspirantes do Mosteiro Bát Nhã, de maneira equânime, atenciosa e sensata, de acordo com as aspirações deles e com as leis e regras do VBA e do Vietnã.

Encorajar a mídia para divulgar corretamente e informar a verdade as pessoas sobre o que aconteceu e está acontecendo neste incidente do mosteiro Bát Nhã.

Esperando respeitosamente que Vossas Excelências considerem urgentemente esta petição e executem nosso pedido, despedimo-nos de Vossas Excelências.

Sinceramente,
Os signatários, (às 10h, do dia 5 de outubro de 2009)